sábado, 15 de janeiro de 2011

Tarantino, Scorsese e consequência

Foto: Diego Teschi

Terminamos ontem o terceiro dia de montagem, que na prática foi o primeiro e meio. Estamos na quarta sequência, mais ou menos a metade do filme. Até agora, o que posso dizer é que o mais chato da edição não tem sido o processo em si. Longe disso.

É fato que os primeiros dias de praticamente qualquer coisa tendem a ser mais agradáveis que os últimos. Também pesam na situação uma terça e uma quinta de pausa, assim como a ótima e barata lanchonete onde paramos para respirar. A exceção é cortesia do pastel de forno, que venderam como bacalhau e era de frango, completamente seco, para completar.

Mas, como ia dizendo, o porém não é o processo, nem tanto o pastel de forno. Temos ainda o maldito timecode, que fez quase toda a ideia de decupagem servir para nada, mas o que me incomoda mesmo é a consequência dele. Desse período de pós-produção, digo.

No meu tempo livre, e até fora dele, penso demais nas possibilidades de montagem. Agora mesmo acabo de visualizar a solução para sequência que mais tive problemas com Igor, e um possível "eureka" para outra. Mas na hora, nós dois sabemos, é bem diferente e nada é tão fácil.

Com isso, falta cabeça para se desligar e simplesmente ver um filme. Estamos no dia 15 e só vi seis em 2011. Verdade que entre eles estão o fabuloso
Viver a Vida (1962) - como eu consegui não gostar dele na primeira vez que vi? - e os ótimos Além da Vida (2010) e Estrada Perdida (1997), mas a pouca quantidade é deprimente. Pelo menos para mim, que não tenho como sobrenome Tarantino, Scorsese ou coisa do tipo, é complicado ver e produzir, assistir a e tentar filmar muitas e boas imagens ao mesmo tempo.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O início do fim (ou do perfeccionismo ao preciosismo)

Foto: David Campbell

Graças a Igor, o “tá na mente” evoluiu para o “tá na maquina”, e agora oficializamos o início do fim. Com ele, é inevitável lembrar de como foi o processo em Do Goleiro ao Ponta-esquerda (2008), que me veio à mente em quase todo o período que discutimos montagem, e como ele tende a ser diferente agora.

Verdade que existe um abismo entre um documentário (sobre futebol) que mescla depoimentos, narração e computação gráfica, com uma ficção de homem que reencontra mulher. Mas se o processo de filmagem do primeiro foi infinitamente mais fácil (equipe se resumia a cinegrafista e eu na maior parte do tempo), sua montagem foi martírio que não vou repetir.

Ontem, o mais próximo do martírio que cheguei foi no retorno para casa, no ponto onde passa um ônibus por cada estação do ano. E dá várias voltas. Para ir de Brotas ao Costa Azul, tive a impressão de ter dado uma passada em Guarajuba. Para quem não conhece Salvador e o litoral norte do estado, é como ir de São Paulo para o Rio com escala em Brasília.

Voltando a Do Goleiro ao Ponta-esquerda, comecei a montá-lo em maio, apresentei o TCC em julho, com poucas mudanças a serem feitas, mas corte final ficou pronto apenas em outubro. Em outubro! Verdade que só de depoimentos eram mais de três horas, duração que nem todo o bruto de agora tem, mas ali eu confundi perfeccionismo com preciosismo.

Agora, nada de discussão por quadros para lá ou para cá. Nunca mais vou filmar não é um filme de ação. Como já disse, é de terror. Parte mais complicada dele, de longe e bem diferente de Do Goleiro ao Ponta-esquerda, foi a gravação. Na montagem, não só espero como visualizo menos tempo perdido para um resultado melhor. Acho possível.

Ps1: Os atentos já perceberam mudanças de créditos, mas explico. Gisela Stangl, a Guiu, apenas passou a ter seu nome na parte que ela desempenhou desde o início. No que diz respeito ao roteiro, desde convite a Bruna e Lucas disse que ideia dos encontros era para finalizá-lo a seis mãos - o que ajudou e muito na gravação corrida, aliás. Em suma, créditos retroativos.

Ps2: Acima, momento pós-filmagens. (Não, não sei se eles estavam tão felizes, mas preciso colocar uma foto bacana para o título do filme não ser profético. Agradeço a compreensão.)

sábado, 8 de janeiro de 2011

A mensagem do Messias

Foto: David Campbell

A cena é comum. Em festivais de cinema e derivados, você vê um entusiasmado diretor a falar de seu filme como se falasse de um filho, muitas vezes como se ele fosse o único do planeta, o Messias.
Faz parte. Nos debates pós-exibição, eles (os diretores e seus pretensos Messias) são bem-vindos, pois - se temos equipe ou parte da equipe do filme - vemos aí umas das raras oportunidades em que uma discussão reúne não apenas comentaristas, mas também comentado(s).

O problema é quando, e aí entram também pré-estreias à parte, a explanação é anterior ao filme.

Mais de uma vez, já senti uma mistura de constrangimento e irritação ao ver um autor "apresentar" sua obra. Essa combinação ideal (ou seja, demoníaca) costuma vir, geralmente, quando o realizador declama uma apaixonada crítica a respeito de si mesmo, ornamentada de metáforas ou de explicações sobre o que quis dizer e fazer.

A intenção do diretor (para não dizer que é irrelevante) importa menos que o filme. Detalhá-la antes da plateia assistir ao filme soa como algo ainda mais invasivo.

No texto que publicaria ontem, falava sobre locação em tom ameno, mas fiquei com a impressão de que já poderia induzir quem lesse a querer assistir ao filme do jeito que planejei. Passada a filmagem, o que eu quero dizer devo dizer é a Igor, na ilha de edição. Quero o blog não para advogar em favor do filme, mas para tentar manter o interesse dos outros em assisti-lo, sem que, para isso, eu tenha de interpretá-lo para todo mundo.

De antemão, todavia, já adianto: ele não será o Messias. Amém.

Ps: Filme com a cabine mais cheia que já fui (éramos umas 20 pessoas), Além da Vida, de Clint Eastwood, trata de espíritos com interesse maior na vida terrena e nos seres humanos, não na catequeze. Mesmo momentos potencialmente bregas, e o final é o mais triste deles, são geralmente contornados com sobriedade e elegância. Como parêntese, a sequência do Tsunami é uma aula de direção de cena-catástrofe. Estreou ontem. Vão!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

"Tá na mente"

Foto: Diego Teschi

Poderia dizer, poderia começar o texto aliás, com um susto. “O filme está montado” foi o início que pensei, mas desisti porque teria aí uma parcela de mentira e outra de sacanagem. Primeiro porque o filme sequer foi para a Ilha, e segundo porque o montador não sou eu.

O que fiz foi dividir decupagem em três etapas, que talvez fossem transformadas em apenas uma se o diretor fosse outro. Na última, que terminei agora há pouco e que fiz sem recorrer à anterior para parecer não influenciado, terminei com anotações detalhadas, no fim das contas já com pensamentos em cortes e sequências.

Algumas delas, quanto mais revejo, mais fico em dúvida, às vezes porque ainda não encontrei o ritmo ou a junção ideal, às vezes porque duas ou mais opções parecem funcionar igualmente mal ou igualmente bem. Já outras me parecem intocáveis, com tomadas medonhas contrastadas com outras perfeitas, inclusive com pontos de corte que parecem sinais divinos.

No entanto, mesmo nestes casos, parte da ideia de estar com o filme montado e visualizado "na cabeça" pode, para não dizer que deve, cair na hora que material chegar nas mãos de Igor. Para o que o filme pede, um bom montador precisa ter noção de roteiro e direção, assim como sensibilidade para ator e atriz. Como deve(ria) ser o diretor. A diferença de Igor é que, como entendeu o porqu
ê de não querer vê-lo nas filmagens, não foi contaminado pelo processo.

Referências o rapaz tem, as do filme ele já sabe. Agora, só precisa salvar o resultado. Até breve, jovem.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Revisão

Revi hoje todo o material.

Exceção feita ao último, quando preferi o desligamento imediato, fiz a mesma coisa após cada dia de filmagem. Ainda assim, só agora percebi certos detalhes, e às vezes apenas em uma segunda visita ao mesmo take. Embora nem todos eles sejam exatamente agradáveis (e também por isso existe a montagem), alguns me deixaram com uma nada discreto sorriso.

Ontem, após pausa natalina, reencontrei Tiago em momento de produção executiva (são menos penosos do que imaginava que fossem). Durante ele, e logicamente depois, veio visualização de cartazes e discussão sobre referências, atividade que - devo admitir - faço satisfeito. Especialmente com stills que peguei hoje Diego (Teschi), o responsável pela função.

Uma semana depois de filmagem, ainda que já me programe para ter overdoses do Téo e da Sara que escolhi (ou seja, estou pronto para pesadelos com Lucas e Bruna), lembrança da equipe é bacana. Como último texto de 2011, acho justo escolher foto que reúne maior parte do time.

Ps: Não lembro autor da foto, só sei que não foi de Diego porque ele está ali, no canto direito. Em breve, com todo material obtido hoje, prometo imagens feitas pelo rapaz. Por "em breve", entenda 2011. Agradeço pela compreensão.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O último fim

Foto: Saulo Nery

Quando Ana Luiza falou em como filmagens tendem a ser sempre imprevisíveis, já passávamos meia-hora do término das gravações. Final digerido, cravei, com alguma ênfase, que tinha feito qualquer coisa, menos o filme que planejei fazer. O tom foi irônico, sem intenção de ser levado a sério, mas havia ali - mesmo que bem discreta - alguma dose de verdade. Só que isso não é necessariamente ruim.

Em meio a fatalidade, chuva e problemas com equipamento, gravamos só 20% dos planos no primeiro dia, o que resultou em cabalísticos 6,66GB. Roteiro técnico teve de ser refeito, sendo que no último dia combinamos de gravar por duas horas a mais como tentativa de compensação. As duas se transformaram em uma e, após pausa para almoço, praticamente tudo virou take de cobertura a ser decidido na hora. Nenhum plano foi gravado mais de cinco vezes, e repetição deles, quando havia, não foi ditada por análise de combinação entre som (que não ouvia), imagem (que pouco via, quando via) e atuação de elenco (que geralmente não poderia julgar àquela distância), mas sim pelo tempo, no sentido da luz e do cronômetro. O perfeccionismo, na prática, se transformou no ter que decidir entre uma boa cena, uma boa atuação, ou um filme.

Em conversa com Bruna, minutos depois de filmagem, disse que, em setembro do ano passado, quando comecei a escrever roteiro, estava no início de um relacionamento perfeito. Como tal, o futuro era idealizado pela imaginação, único lugar onde a continuidade dele existia. Passado mais de um ano, romantismo foi pragmatizado, discussões fortaleceram e desgastaram relação, marcante e próxima do caminho sem volta. Ontem acabamos, mas voltamos em janeiro, os dois sabem disso, pela última vez.

Após ela, sobem os créditos da relação, e fruto dela passa a não ser nosso. Espero que resultado me agrade, obviamente, mas também que ele agrade aqueles que acreditaram em projeto.

Agora, o filme e eu precisamos da mesma coisa: descanso e distância um do outro. Um natal bacana a todos, especialmente àqueles que deram sua contribuição para a feitura de
Nunca mais vou filmar.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O dia

Primeiro a entrar no projeto, David me lembrou falta de memória de nós dois com relação à +1 Filmes, de quem só esperamos a logo para divulgá-la.

Ontem recebi mensagem no Orkut de Antonio Nahud Júnior, que falava em surpresa para mim no blog dele. Ao entrar, li que O Falcão Maltês era premiado, o que não é nada inesperado, pois o blog é um monumento. A surpresa veio depois.

Uma das condições do
Prêmio Dardos, a honraria recebida por Antonio, é o premiado indicar outros blogs que reconhece como fonte de conhecimento e aprendizado cultural. E os três escolhidos por Nahud foram o Tela Prateada, de Daniele Moura, o Setaro's Blog, de André Setaro, e O Homem Sem Nome, moribundo blog deste rapaz aqui.

Como se não bastasse o orgulho de ser indicado por Antonio e de estar ao lado de Setaro, o dia chegou e amanheceu lindo. Que continue assim para todo sempre, amém.

Atualização às 20h28min: A chuva apareceu, negocio um sol para amanhã e depois.

Ps1: Lucas, em nome da equipe, desejo melhoras e o melhor para você.

Ps2: Na foto, A Noite Americana (1973), de Truffaut. A nossa já começou na véspera.